Mania de Sling by Dida

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Relato do Parto de Blanka, pela mamãe Carol… um belo Parto Domiciliar.. janeiro 6, 2009

Filed under: Uncategorized — Dida @ 15:29

Relato: Blanka nasceu em nossa casa

Lembranças…
Algumas lembranças do meu primeiro parto começaram a me vir à cabeça da 30a semana desta gestação e daí em diante e muitas coisas começaram a me corroer. Devo esclarecer que o primeiro parto foi natural, sem intervenções e Lara nasceu com muita saúde. Foi um momento lindo da minha vida e guardo até hoje cada minutinho de todas as emoções que senti ao trazer ao mundo a minha menina. Ela ficou comigo o tempo todo desde que nasceu, mamou nos primeiros minutos e ficamos desde então juntas numa enfermaria coletiva onde outras mães me ajudaram a dar os primeiros cuidados (banho, trocas, amamentar) e isso foi muito bacana. Mas era mais do que isso.

Começou a me dar uma ansiedade ruim, com a expectativa do momento da chegada à maternidade, de precisar aguardar na recepção (talvez com muita dor), de me despedir do meu marido (existe a lei, mas lá acompanhante algum entra), deitar naquelas caminhas estreitas, vestir aquela camisolinha mais ou menos, tirar brincos, anéis, meias (adoro ficar de meia) e me dirigir pra uma sala fria-inox, com luzes fluorescentes, com pessoas que nunca vi na vida e pra quê? PRA CONHECER A MINHA PRÓPRIA FILHA QUE ESTAVA DENTRO DE MIM!

Na época do primeiro parto ninguém me falou disso. Eu aprendi a contar direitinhos as contrações, a não me desesperar caso a bolsa estourasse, sabia que não queria e não precisava ser depilada e nem ser cortada na hora do expulsivo. Mas nunca me disseram que eu ficaria quase 12 horas deitada de barriga pra cima (a pior posição pra uma grávida), depois ainda seriam várias horas sozinha esperando o próximo horário de visita (que dura só 1 hora) pra ver uma cara conhecida. Ou que eu só poderia ver minha família por alguns minutos por dia até ter alta quase 48 horas depois de um parto natural sem complicação alguma! Não me contaram que eu ficaria muito insegura na hora do trabalho de parto, deitada de pernas abertas sempre pronta para o próximo toque…e foram muitos, porque eu não dilatava! [ou eu não dilatava porque eram muitos?] Que eu precisaria segurar na mão de alguém, ver uma pessoa conhecida, olhar pra alguém que olhava pra mim. Não me disseram que os alunos que assistiriam ao meu parto iam ficar comentando sobre os novos filmes no cinema (era sexta-feira) e sairiam todos ao mesmo tempo da sala para jantar pizza. E que eu deveria rezar pra minha filha não nascer naquele “recreio”. Nunca soube que a protagonista do meu parto não era a equipe médica, mas eu.
Não agüentei mais e comecei a procurar, no início, timidamente, alternativas, como por exemplo, ficar o máximo possível em casa pro trabalho de parto não ficar travado como foi da outra vez, antes de ir pra maternidade. Descobri boas dicas e conheci pessoas que tinham chegado à maternidade com 9cm de dilatação. Mas pra mim ainda era pouco e não resolvia metade das minhas angústias. Como dizem muitas pessoas que tiveram parto domiciliar e eu agora sei que é verdade pra mim também, “MEDO eu tenho de hospital”. Na maternidade havia passado muitas horas SOZINHA no meio de um monte de GENTE, na ESCURIDÃO de uma sala muito ILUMINADA, num SILÊNCIO profundo em meio a muita CONVERSA.
Fiquei com medo das minhas más lembranças de um parto que, apesar de chamarem de natural, foi assistido, monitorado e invadido por pessoas que nunca vi e nunca me viram. E olha que eu estava num hospital escola…poderia se bem pior…
“Meu sonho era parir em casa”
Aos poucos minha mente foi clareando e eu comecei a escutar o que eu mesma dizia várias vezes, como um mantra, desde 2001: “meu sonho era parir em casa” …

Um dia, lá pela 35a semana de gestação, eu acho, conversei sobre isso com o André – porque além de tudo isso, tem o lado dele. Na Maternidade ele ficaria de fora – do lado de fora mesmo – e só receberia um recadinho tipo “Quem é o André? Vc? sua filha nasceu e está tudo bem. Volte de 11h às 12h para o horário de visitas. De bermuda não entra.”. Depois que falei, lamentei e filosofei sobre estas minhas angústias, chegando ao sonho que sempre tive de ter um parto domiciliar, ele, calmamente, me olhou com aqueles olhos azuis que sempre me acolhem e disse: e por que não faz? Só fiz abraçá-lo como se fosse o maior tesouro (e é, né) da minha vida e chorei por 20 minutos sem parar…
Daí em diante comecei a pesquisar sobre o assunto e conheci várias pessoas que me ajudaram me enviando relatos, muitas das vezes dos próprios partos, dando dicas de vídeos, sites e textos. Depois de ler o relato do nascimento da Tami, que foi em casa, porém desassistido, minha confiança na minha capacidade de gestar e parir apareceu. Eu me vi pronta para ter Blanka em casa. Eu e a minha natureza de mulher mamífera que sabe o que quer, que quer o melhor para suas crias e não desiste dos seus sonhos.

Após a leitura de muitos relatos de parto (decisivos pra toda mulher grávida) fiquei até com dor de cabeça de tanto chorar e soluçar…e admirar suas experiências, seus partos, suas crias e suas palavras…não cabia em mim de emoção. Entendi que, hoje, muito mais do que há 7 anos, no primeiro parto, tenho consciência da minha capacidade de decidir e que fosse onde fosse minha menina nasceria – talvez não da melhor forma – mas da melhor mãe que eu poderia ser.

Como disse a minha madrinha e doula virtual (amei isso) Marilyn: “Parto é parecidíssimo com lagarta virando borboleta. Acontece, amadurece e nasce.” E foi assim.
Da busca ao encontro com a parteira
Lendo um relato lindo de parto numa comunidade sobre PARTO DOMICILIAR achei pela primeira vez alguém do Rio que falava de PD. Era o Gustavo, pai da Aurora, que com uma sensibilidade ímpar descrevia o trabalho de parto e o nascimento da sua filha. Me emocionei muito com o relato e gostei da forma como ele descreveu o contato e o trabalho da parteira. Entrei em contato com ele, e em seguida já tinha achado a minha parteira. E foi amor à primeiro vista.

Depois de conversar com ela pelo telefone fiquei muito emocionada e feliz com a possibilidade de parir na minha casa ao lado do meu companheiro e da minha filha, com pessoas que acreditam de verdade, como eu, na capacidade do meu corpo parir naturalmente. No primeiro encontro, em minha casa, parecia um sonho. Marilanda me contava sua vida, sua experiência acadêmica e de vida e eu a admirava cada vez mais. Ela me contou várias histórias de partos lindos, mostrou fotos, quis saber sobre a minha vida, minha família, como eu estava pensando no meu parto, o que eu queria fazer com a placenta, me tirou mil dúvidas. No finalzinho ainda escutamos o coraçãozinho da Blanka e ela me fez um exame de toque. Coisa mais delicada do mundo, nem parecia uma consulta de pré-natal. Imagina eu sendo examinada na minha cama ouvindo música caboverdiana (que eu amo) e na penumbra do abajour!

Tive certeza que era aquela mulher cheia de história pra contar, com muita vontade de mudar o mundo e ao mesmo tempo de uma doçura encantadora, que eu queria comigo no meu momento de parir.

As Arianas: encontro com a minha doula
No dia seguinte ao encontro com Marilanda, conheci minha doula e foi sintonia total. De cara. Duas arianas se entendem bem. Ela mora perto da minha casa, no mesmo bairro, numa ruazinha super tranqüila e numa casa deliciosa que você esquece que está no Rio [onde eu queria morar…hehe]. Com essa calma e o maior silêncio comecei tirando os sapatos, nos sentamos para conversar e ela me pediu pra falar como cheguei ali. Contei a minha história desde o parto natural hospitalar até a minha busca no orkut por uma solução para as minhas aflições, os relatos e vídeos, do meu encontro comigo mesma em cada um destes relatos e o dia que o André mandou o já celebre “por que não?”. Ela ouvia atenta e entusiasmada com a rapidez com que tudo aconteceu e aos poucos eu fui relaxando e ela me conhecendo um pouco mais. Conversamos sobre a gestação, sobre a Blanka. Nunca haviam me perguntado como a Blanka é – acho que as pessoas não pensam que ela já é alguém né? Contei que já tinha tido duas oportunidades de me aproximar mais dela: a primeira quando ela estava pélvica e depois quando se enroscou no cordão. Conversei várias vezes, com muito carinho, pedindo que mudasse de posição e se desenrolasse do cordão e sempre funcionava. Ela também ficava bem quietinha quando o pai punha a mão na barriga quando a seqüência de chutes estava frenética demais pra mamãe ter sossego. Depois partimos para uma outra sala com grandes almofadas, uma cama daquelas de massagem, algumas mandalas, bolas, tapetes de ioga e outras coisas que nunca tinha visto.

Primeiro ela me pediu pra ficar na posição que quisesse e começou a me explicar sobre a formação do embrião, depois me mostrou um modelo de gesso de uma bacia com um períneo de borracha dentro…achei fantástico e aquele modelo me foi muito útil dali em diante porque nunca tinha imaginado como era. Aprendi a fazer algumas respirações e posições que também usei muito nos dias seguintes até o parto. Vivia fazendo pose em casa. Acho que a gente podia ser doulada sempre, grávida ou não.

Programa dominical: parteira conhece a família
Marilanda passou uma manhã de domingo conosco em casa conhecendo André e Lara. Conversamos muito, ela conversou com ambos e, no fim da manhã, todos nos reunimos na minha cama pra mais uma consulta do pré-natal. Se eu já estava deslumbrada em fazer o pré-natal sozinha com ela em casa imagina o quanto não fiquei com meu marido e minha filha junto. Foi muito bom ter os dois ao meu lado (literalmente, porque a Lara estava deitada do meu lado abraçada comigo o tempo todo) Escutamos o coraçãozinho da Blanka, Lara examinou André e sua ursinha Sabrina, pra ver se estava tudo bem com a família toda. Ela também ajudou Marilanda a fazer um suco que eu tomo todos os dias e que chamamos de “suco da vida” porque até o bagaço serve pra adubar as plantas. Resultado do dia foi que Blanka ainda estava alta e André poderia viajar sossegado (ele tinha uma viagem marcada para a minha 40a semana de gestação). Ainda me preocupava a proximidade da festa junina da escola da Lara e da festinha de aniversário dela programada para 2 dias depois da data provável do parto.
A placenta
No primeiro encontro com a parteira ela me perguntou se eu já tinha pensado no q fazer com a placenta. Confesso que eu nem sabia que tinha que fazer “algo” com ela. Simplesmente porque nunca tinha visto uma placenta. Ela me deu algumas opções, mas a que eu achei mais bonita e mais condizente com a nossa realidade foi plantar. Minha amiga Marilyn me ajudou de novo…rsrsrs…me dando o bizú de como, onde e porque plantar.

Comentei com a Tati, uma amiga muito querida que mora em Itaipu e ela se apaixonou pela idéia. Na mesma tarde de domingo que Marilanda tinha vindo ela nos presenteou com um vaso lindo e uma mudinha de árvore da felicidade sob a qual vamos plantar a placenta da Blanka e um dentinho da Lara que acaba de cair.

O show só começa quando está tudo pronto.

Pra lá de 40 semanas e nada de Blanka querer nascer. Eu estava tranqüila, André também, e também, pudera: ele viajando, Lara prestes a fazer uma festinha na escola, nada de berço e carrinho, nem o plástico pra forrar a cama, e nem o padrinho tinha sido comunicado. Mas a família e os amigos não perdoavam, o telefone não parava de tocar e me todos a me escrever perguntando “que dia vai nascer”, “até quando vou esperar”, “por que não marco logo”, “a Blanka não passou do tempo”e outras coisas mais. Nos dias que antecederam o parto fiquei em casa reclusa como um bicho prenho. Em casa, concentrada. Só via André e Lara na minha frente. Só me concentrava em me preparar para o parto. Sabia que daria tudo certo. Era certeza.

Quando André chegou de viagem, Lara curtiu sua festa, compramos tudo que faltava, o padrinho foi convidado e aceitou “com muito gosto” e eu relaxei de TUDO que ainda faltava, era uma sexta-feira. Lara teve a aula aberta de piano antecipada em 3 dias e acordamos cedo pra ela tocar às 08h00. Ela estava meio resfriada e depois da aula fomos pra casa e não a mandei pra escola. Embora tivesse acordado super cedo não quis dormir durante o dia e ficou desenhando. Diferente de mim, que apaguei num sono profundo por várias horas da tarde. À noite, porém, ela dormiu cedo, eu fiquei sem sono deitada vendo TV enquanto André não chegava do escritório. Passava o filme “Um pai de família” na TV à cabo e na metade do filme André chegou. Já tínhamos assistido a saga do homem de negócios que um belo dia se vê como um pai de família, frente aos desafios de amar e cuidar de outros que não ele. Mas continuamos assistindo ao filminho.

Aproximadamente meia-noite e dez levantei do sofá pra fazer xixi (pela centésima vez) e quando voltei achei que tinha corrido uma aguinha pelas pernas. Sentei, levantei de novo e outra aguinha. Olhei pro André e disse “acho que é a bolsa”. Sentei e levantei de novo. Escorreu de novo. E ele: “é a bolsa”. Eu ri feliz. Havia chegado a hora. Sentei no chão, sobre um edredom e ele ligou pra Marilanda. Ela perguntou se havia contrações, eu disse que não e ela ficou de chegar em 1,5 hora. De repente senti a primeira contração. Avisei ao André e ele começou a marcar os intervalos. Já começaram de 5 em 5 minutos, de 4 em 4 e lá pela quinta contração o intervalo já era de 2 minutos. E nós dois assistindo ao filme na maior paz. Depois de algum tempo fui pro chuveiro e ele ficou cochilando na sala com o relógio na mão. De luzes apagadas, fiquei sob a água bem quente nas costas, debruçada nas torneiras com a cabeça baixa (que posição ótima…queria ficar ali pra sempre!). Debaixo d’água eu quase não sentia as contrações e os intervalos diminuíram para 1 minuto e meio. Depois de quase 2 horas desde o primeiro sinal nada da Marilanda chegar e o André achando que ia aparar a criança ligou pra ela brincando que ela ia perder o parto. Ela perguntou se as contrações já estavam de 10 em 10 minutos e ele, rindo, disse: não, de 1 em 1. E eu no chuveiro tranqüila. Quando ela chegou eram 02h00. Fomos pro quarto fazer o toque e eu já sentia contrações beeem mais fortes. Preparei o CD que queria ouvir. Estava com 6cm de dilatação. Tudo fluindo. As contrações vinham e eu inspirava profunda e lentamente e expirava imaginando coisas bonitas como fotos e vídeos de partos. Voltei pro meu cantinho na sala sobre o edredom, mas resolvi ir mais uma vez pro chuveiro, mas já não queria ficar lá. Quando saí ganhei o abraço da Kira, minha doula, que acabara de chegar. Eram 02h30 e estava todo mundo pronto. Voltei pro cantinho do edredom, agora ajoelhada no chão com os cotovelos no assento do sofá sob uma fraca luz.
Senti que “o local”era ali desde o início. As contrações vinham e eu inspirava. E Kira inspirava comigo. Ela ficou abraçada a mim e ao meu lado durante a hora que se seguiu. Quando vinham as contrações ela me massageava nas costas e inspirava ao meu lado para eu não perder o ritmo e ficar ofegante. Fiquei concentrada demais nestas respirações e muito consciente de que tudo corria como previsto e o trabalho de parto evoluía brilhantemente. Acho que após meia hora Marilanda me fez outro toque ali naquela posição mesmo e a dilatação já era total. Lara dormia. André me observada com seus lindos olhos azuis solidários e me dizia com sorrisos por demais confortantes, que estava ali se eu precisasse. Era o que eu queria dele e ele me deu o tempo todo. Eu e Kira cada vez nos tornávamos mais próximas e a cada contração que inspirávamos juntas eu sentia dores mais fortes. E sabia que isso era bom. Ninguém dizia nada, éramos pura energia concentrada. A paz e o silencio da madrugada ainda ficaram mais preciosos com uma chuvinha que começou a cair. As contrações vinham e eu comecei a me balançar pra frente e pra trás, o que me aliviava bastante, juntamente com as compressas quentes e massagens nas costas que Kira me fazia. Eu sentia Marilanda se movimentar com sutileza e silêncio. Sentia que estava chegando ao fim. Entre as contrações só lembrava de que aquilo era meu sonho virando realidade, que era tudo que eu sonhei e mais um pouco. Ficava feliz por ter conseguido e insistido no meu sonho. Aí vinha mais uma contração. Kira inspirava ao meu lado, eu inspirava com ela e ela me massageava. Outro intervalo e eu pensava em Blanka descendo, fazendo um mergulho que eu já tinha feito quando nasci e que também ajudei Lara a fazer há 7 anos. Às vezes eu a chamava docemente “vem, Blanka, vem, minha filha” e sentia que ela vinha, que as contrações se intensificavam e que estava mais perto.
Depois de algum tempo comecei a sentir que estavam fortes demais, não conseguia mais inspirar com tanta tranqüilidade e perguntei a Kira “está acabando, não está?” Ela fez com a cabeça que sim e me abraçou. Lembrei que quando a gente acha que não agüenta mais é porque vai nascer. Me concentrei outra vez. Marilanda disse que faltava pouco, que ela estava descendo. Achei que ainda faltava alguma coisa pra eu fazer força e não fiz. Achei que ainda não era hora. Neste momento ouço pela primeira vez a voz do André: “vamos, bebê está acabando, vamos” e vi o sinal verde. Confiei nele e senti que era hora. Fiz força. Nas últimas 6 ou 7 contrações eu fazia força e grunhia pra ajudar na força. Lara acordou e veio pra sala meio sonolenta e assustada. André explicou a ela que a irmã estava nascendo, que ela também nasceu assim e que no final é um pouco mais difícil mesmo. Perguntou se ela queria ficar e ela disse que sim. Senti coroar e falei “Ai, ta queimando”. Marilanda disse: “ela está vindo”. Ainda com a sensação de queimação (o círculo de fogo pega fogo mesmo!) coloquei a mão e senti o topo da cabecinha. Aquilo me deu toda a força que eu precisava. Blanka estava nascendo. Mesmo! Imaginei ela ali saindo de dentro de mim e na contração seguinte fiz toda a força que podia, pensando nela saindo suavemente. Foi o que aconteceu e eu senti direitinho a cabeça escorregando pela minha bacia. Fiz força de novo e, já sem sentir dor, senti o mergulho de Blanka no mundo como o vídeo que assisti do nascimento da baleia beluga na água. Ouvi um gemidinho. Era ela. Blanka tinha nascido. Eu agradeci a Deus chorando de emoção. Ao meu lado Lara dizia animada: “minha irmã nasceu! minha irmã nasceu!” Eu a olhei com os olhos cheios de lágrimas, com o peito transbordando de alegria por ela ter visto a irmã nascer e disse: “viu? nós conseguimos, filha!” Procurei André e ele continuava na cadeira me olhando esperando eu olhar pra continuar a me dizer com olhos “estou aqui”. Ele sorria com satisfação.
Procurei Blanka. Ela estava embaixo de mim, segura por Marilanda. Eu estava de costas e ainda com o cordão. Perguntei como fazia pra virar (e todos riram). Eu virei, sentei e, tremendo de emoção, recebi minha menininha. Tão pequena, tão linda, tão perfeita. André filmava emocionado e eu disse: “foi feita com muito amor”. Senti mais umas contraçõezinhas e logo a placenta saiu. Kira, que adora placentas, foi logo guardá-la. Lara maravilhada com a irmã procurava a roupinha pra ela usar. Blanka mamou, eu comi uma banana e fui tomar um banho. Marilanda e Kira me fizeram um suco e depois de arrumar as coisas foram embora. Eram 06h00 e a família, agora com 4 membros, deitou na cama para dormir mais feliz do que na noite anterior. Não conseguíamos parar de olhar pra ela ali na nossa cama tão quietinha e serena. Dormimos algumas horas. Nossa vida mudou e somos muito diferentes depois desta experiência. Ter filhos é a melhor coisa do mundo, mas ter em casa, no meio de nossa família acrescentou uma mágica indescritível.
Agradeço ao meu amor, André, por ter confiado desde sempre, me dado força para que todos os meus sonhos se realizassem e por me completar e me compreender tão perfeitamente. A minha amada filha Lara por existir e me ensinar o que é amar. À Marilanda, minha parteira, que soube nos acolher em cada minuto desde que nos conhecemos, tornando tudo simples e tranqüilo. A minha doula Kira, que, com seu trabalho e carinho pariu junto comigo. Vocês agora são da nossa família. Às queridas amigas Mamíferas Radicais que foram decisivas para minhas escolhas e me mostraram que é possível ser eu mesma. A todos da lista Parto Nosso, sempre na luta (que agora é também minha) em divulgar a humanização do parto de modo tão doce e ao mesmo tempo com tanta seriedade. A todos que dividem suas histórias em belos relatos de parto, contribuindo (da mesma maneira que espero estar fazendo agora) para que o parto volte a ser o que na verdade sempre foi: um acontecimento natural de amor.

E a Deus, que permite milagres como o que aconteceu em nossas vidas.

Ana Carolina, nascida de PNH em 1980.
Casada com Andre, nascido de PNH, em 1958.
Mãe da Lara, nascida de PNH, em 20/07/2001 e da Blanka, nascida em casa, dia 12/07/2008.

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